Saturday, November 07, 2009

O monstro do milharal - e as rosas do quintal!!!

Eu confesso tenho memória curta. E isso não é nada interessante, há muitas coisas da minha infância que simplesmente não consigo lembrar. Frustante? Sim, ainda mais agora que entendo o quanto minha infância foi interessante. Mas, volta e meia lembro de algumas peripécias daquela época, e aos poucos algumas memórias táteis, olfativas, gustativas vão vindo à tona. O sabor do feijão da minha avó, por exemplo. Do esfregolão de milho no meio da tarde em dias de chuva, essas coisas. Mas eu lia muito quanto criança, quando adolescente muito mais. Já devo ter contado por aqui, que sempre quis ser escritora, por isso eu vivia muito cada história. Acho que lembro melhor delas, dos seus personagens, do que algumas histórias e personagens reais da minha infância.

Mas, eu vivia com mais umas 5 crianças, éramos primos. E criávamos todos os dias inúmeros personagens, alguns fantasmagóricos. Nunca me esqueço do "monstro do milharal". Nunca contei? Ah, não acredito. Foi assim: Era uma vez, uma tarde de fazer marmelada lá fora (entenda-se marmelada, não de marmelo, mas de qualquer fruta. Só mais tarde, fiquei sabendo que marmelada é de marmelo. Figada é de figo, perada é de pêra, e assim por diante. Assim como, só fiquei sabendo bem mais tarde que "doberro que o gato deu" é do berro que o gato deu, heuahaua, eu me divirto comigo mesmo...Sou inocente, gente, acreditem). Bom, mas como ia dizendo, se reuniu a vizinhança, para a tarde da marmelada. Colhe as frutas, descasca as frutas, faz fogo lá fora, se limpa o tacho, coloca as frutas no tacho, ferve, ferve, coloca açúcar, às vezes um pouco de água...e mexe...mexe...mexe...E a alegria da criançada era se lambusar com as rapas no final do tacho, quando tudo estava pronto.

A estrada do lado do milharal

Enquanto as mulheres preparavam a marmelada, nós brincávamos de casinha atrás do paiol, debaixo das árvores, do lado do milharal. Nossas casas tinham tudo: cozinha, sala, quartos e inventávamos histórias mirabolantes, baseado em histórias reais, ou que víamos nas novelas. Existiam conflitos existenciais, amorosos, momentos de festa, de tristeza. Eram nossas histórias, nas nossas casinhas. Histórias de gente grande, reinventada por gente pequena. Mas, eis que um dia quando ao acordar, tivemos uma surpresa, nossas casinhas estavam todas desarrumadas, objetos quebrados, portas caídas..um caos. Entre várias hipóteses numa de nossas reuniões para tentar descobrir quem estava destruindo nossas "casinhas" chegamos a conclusão que o mal vinha do milharal. Sim, tínhamos certeza que um monstro habitava o milharal alto, verde, fechado.

Então, enquanto as mulheres continuavam fazendo a "marmelada" decidimos duelar com o monstro. Juntamos sacos de cáquis da frente de casa, e fomos para nosso posto de ataque, a porta entreaberta da estrebaria (hoje ela nem existe mais). E começamos a jogar muitos cáquis para os lados do milharal, acreditávamos que o monstro seria atingido de alguma forma. Eis, que para nossa surpresa alguns cáquis começaram a voltar. O susto foi geral. Ele existia mesmo, corremos para frente de casa, onde as mulheres mexiam o tacho de "marmelada", e chamamos nossa prima mais velha Andréia (é a mãe do bêbe lindo que aparece numas postagens abaixo) para um canto e lhe relatamos o acontecido. Minha prima que já era uma mocinha, não acreditava mais em papai-noel, quanto menos em monstro do milharal, mesmo assim, resolveu por a prova nossa história. Voltamos para nosso posto de ataque, ela ficou escondida de longe observando, queríamos mostrar que os cáquis estavam voltando, que o monstro morava ali na lavoura de milho. Jogamos, jogamos, jogamos e nada, o monstro não deu nenhum sinal. E minha prima muito indignada nos deixou ali sem entender.

Confesso, que até hoje não sei ao certo se o monstro existia de fato, ou se ele era minha prima Andréia, ou meu irmão Màrcio que estavam sacaneando com a gente. Bom, eu acredito em histórias, em ficções, vivo criando e recriando as minhas próprias. Impressionante, às vezes só muda os personagens. E mais do que me lembrar das peripécias da galerinha reunida na infância, eu me lembro das histórias dos livros....minha memória fotográfica de cada lugar, cada rosto da triologia O tempo e o vento é impressionante, Érico Veríssimo ficaria impressionado com minhas densas descrições. Eu sinto o balanço da cadeira de Bibiana, nas noites de vento. Eu sinto a apreensão no cerco ao sobrado. Eu ouço a flauta de Pedro Missioneiro. Eu vejo Ana Terra no tear. Eu lamento não ter conhecido Rodrigo Cambará, ter tomado uma cachaça no bolicho.

Eu vejo Clarissa no balanço debaixo das árvores no quintal. Eu tento desvendar o mistério do caso dos dez negrinhos, de Agatha Cristhie. Eu vejo ela se encontrando com ele na cozinha na noite da missa do galo. Enfim, eu tenho guardado fotograficamente todos as sensações que envolvem essas histórias, essas personagens, esses livros.

As rosas no quintal em frente ao milharal

Aí, cresci, fiz jornalismo, acreditando que era o caminho para ser escritora, como relatei para um amigo na noite de quinta. Hoje, quero ser também antropóloga (literatura, jornalismo, antropologia, é tudo muito mais próximo do que imaginava) tenho tentado retomar minhas leituras de literatura...deixei elas guardadas no tempo...hoje elas me fazem falta para escrever, para imaginar, para te ler, para me ler...

Por que essa postagem? Não sei, me deu vontade de escrever sobre isso ontem depois de passar a noite de sexta em casa assistindo documentários, lendo livros, sem vontade de sair...olhando para umas rosas pequeninas vermelhas e uma botão de rosa rosa entreaberto, do lado ainda um bilhete do principal personagem, da atual história....Que se passa, com me???

Tuesday, November 03, 2009

Resquícios do Oscure Faith Festival VI - Santa Maria - RS




O zunido no ouvido permaneceu durante todo o dia de ontem. Confesso era a primeira vez que passava 5 horas da minha vida imersa no meio do som metal. Uma experiência mais do que interessante para quem gosta de conhecer coisas diferentes do habitual blues, MPB, e essas cositas bem leves aos meus tímpanos. No palco seis bandas, até mesmo da França. Caras pintadas, todos de preto. Cabelos compridos e um único embalo: a corpo parado, mas o pescoço e a cabeça num ritmo "doidão".





Fotografar no DCE também não é uma das melhores experiências. Isso se deve ao fato de que a escassez da luz incomoda quem não gosta de usar muito flash. Ah, mas o flash, às vezes é bacana, rende mais do que o imaginável. E por isso para mim tudo foi descoberta e brincadeira. Me diverti muito com o metal extremo, com as cabeças balançantes e ainda experimentei estéticas que estou trazendo um pouquinho por aqui. Por que há que se ser versátil nessa vida, sempre dando sentido de descoberta.

Bah Homero, agora eu entendo a poesia da tua música, heheheh....

Friday, October 30, 2009

Um toque de impressões sobre Concórdia na Argentina


É estranho caminhar pelo centro de uma cidade de aproximadamente 150 mil habitantes, as três horas da tarde e não ver na rua, praticamente, ninguém. É possível apenas contemplar o barulho dos pássaros nas praças e nas árvores do calçadão, as sacadas com belos vasos de flores, e o silêncio da ruas, que chega a ecoar até mesmo no ouvido dos mais insensíveis. Muito mais estranho se levarmos em conta nossa rotina, nossa movimentação constante pelas ruas de Santa Maria. E não era feriado, nem final de semana. Na Argentina, ao menos em algumas cidades que andei passando, como Concórdia, nos últimos dias, é assim. Um longo descanço sagrado depois do meio-dia e vagarosamente, depois das quatro da tarde, as portas das lojas se abrem, e cidade volta a ser uma "cidade".


Ali, também é difícil encontrar arroz, ao menos quente, nas refeições. Bifê é coisa de outro mundo, do nosso mundo, no caso. Muita batata-frita, Quilmes de litro, obviamente, e uma tontura depois do almoço sem ter o que fazer. Mas há várias praças, parques, uma "horla" nas margens das águas doces do manso Rio Uruguai. E as pessoas correm no sol escaldante, depois do meio-dia. E tudo é muito bem cuidadinho. Pode-se, também visitar museus: de antropologia, dos judeus, de artes visuais, de recuerdos, de cultura regional. Tudo muito singelo e atraente.
E é possível ainda se imaginar num castelo, ao menos ao tocar nas ruínas do Castelo San Carlos.

Nas ruas muitos carros "marca diabo", de "trocentos anos atrás". Remises, que não são táxis, táxis, que não são remises. E o preço sempre muito justo, e acessível. Andar de a pé, nem pensar, só se levarmos em conta o fato de termos pesos contados. As festas também nos soam um movimento estranho, especialmente diante do fato de começarem lá pelas 3 da manhã, fomos os recepcionistas em todas as noites. Músicas? Até "bate forte o tambor", do tempo do "epa", mas tudo muito divertido.

Apresentar pôster para mim também causa um certo estranhamento. Apresentação oral sempre foi o costume, mas que nada melhor pôster quando se engasga no meio da explicação aos avaliadores, que eu tenho quase certeza que entenderam muito pouco da minha pesquisa.


Mas que nada o que vale é as vivências, é o olhar antropológico, é a percepção de que nossos gostos, impressões e estranhamentos são todos produzidos culturalmente. Eu gosto de arroz quente no almoço e do gosto do feijão da minha avó, o gosto pela qual fui educada, e que está impregnado nos meus poros independente de onde estiver.


É isso, algumas impressões dessa interessante cidade argentina, Concórdia. Só mais uma viagem neste ano. Eita que ta bom demais!!!Mas eu queria ter ido preencher um vazio em Buenos Aires, e hoje queria dar um abraço forte....

Sunday, October 25, 2009

Descobrindo nossos medos...os "não-medos"

Abri o livro de poesia já citado outras vezes por aqui, e Mário Quintana então me diz:



O Descobridor

Ah, essa gente que me encomenda
Um poema
Com tema...

Como eu vou saber, pobre arqueólogo do futuro,
o que inquietamente procuro
em minhas escavações do ar?

Nesse futuro,
tão perfeito,
vão dar,
desde o mais inocente nascimento,
suntuosas princesas mortas há milênios,
palavras desconhecidas mas com todas as letras
(misteriosamente acesas,
palavras quotidianas
enfim libertas de qualquer objeto.

E os objetos...

Os atônitos objetos que não sabem mais o que são
no terror delicioso
da Transfiguração!

Diria que é um pouco assim que me sinto hoje, uma descobridora, depois de dias tensos, entre o "não-foco" da minha possível dissertação e o "não-ato" do devir, que por ser devir estar por vir. Sim, obviamente. E descobrir é assim, é aquele brilho no olho, aquela confusão nos poros, aquela necessidade de tocar nas palavras, no vazio, no "não-carnal", enfim, é o desconhecido, e o jogo que se estabelece. Como diria Baudelaire "Quanto mais a matéria é, em aparência, positiva e sólida, mais sutil e laborioso é o trabalho da imaginação". Enfim, agora eu tenho um foco dissertativo e também um ato concebido. Me acompanhas pela Argentina?

Bom, ahora si, me voy a los hermanos!!! E eu gosto de descobrir!!!

Thursday, October 22, 2009

O tal medo do devir





Confesso, que hoje poderia escrever sobre meu terceiro lugar no concurso de Arte Declamatória, e as várias críticas que gostaria de fazer sobre alguns comentários maldosos que ouvi por lá. Poderia, também escrever sobre a nova conjuntura política, afinal quem poderia imaginar um dia PT com candidato a presidente e PMDB, com um vice...E agora, meu pai, cadê as ideologias, cadê o compromisso com os discursos pré-concebidos por uma história, por uma luta, enfim. Mas, quero me ater em falar sobre o medo do devir. Confesso que as aulas de sociologia, aliás o mestrado em si estão me perturbando.

Em que medida? Na medida em que percebo uma certa maturidade intelectual, ao mesmo tempo uma maturidade ou necessidade cognitiva de incorporar certos dilemas existenciais. Mas, até os sociólogos mais metodologicamente centrados falam das paixões humanas. Dessas que fazem com que certas estruturas sejam influenciadas pelo conhecimento que temos dos mecanismos estruturais. Quanto mais conhecemos os mecanismos engendrados numa estrutura, mais somos conscientes em que medida podemos influenciar esta estrutura, não é assim? Papo chato, difícil? Imagina, então, eu que gosto de escrever de um jeito simples, pra todo mundo entender, que me considero uma pessoa descolada, que gosto de escrever poesias, devaneios, tendo que sobreviver a toda essa teorização, muito bem fundamentada por sinal. Pior do que sobreviver, é que tenho que confessar que estou tomando um certo apego, gosto, por esses devaneios científicos. Sim, isso esta muito explícito nas minhas postagens por aqui. Ui, linguagem até mais rebuscada nos meus artigos, nem eu me aguento mais, mas é bom perceber uma evoluação intelectual que se faz necessária. E os dilemas existenciais?

Ta, mas quero me ater em escrever sobre as tais "paixões Humanas", essas que de fato fazem com que a ação racional paralise. Pois é isso que acontece, as emoções paralisando a ação, ao menos a mais racional, das racionais. E quem conseguir provar o contrário empiricamente que me avise, eu não consigo. Diante dessa abrupta paralisação a ação racional encorajada pelas nossas paixões, vem o medo do devir. Que para mim, por ser o devir, não tem como ser friamente calculado. Apesar, de que muitos defendem o fato de que maior parte de nossas ações são conscientemente controladas. Isso quer dizer, se podemos controlar, podemos prever, medir o devir, mas e as variáveis que se apresentam nas mais diversas ordens: temporais, sociais, carnais, enfim....




Em meio a este turbilhão de ideias, de sentimentos, de necessidades, estou eu, Francieli Rebelatto, uma jovem pesquisadora, uma jovem mulher, uma jovem fotógrafa, uma jovem jornalista, uma jovem aspirante a antropóloga, uma jovem aspirante a poetisa, escritora, uma jovem aspirante a declamadora (hauahau), e quantas coisas mais que passam pela minha cabeça. Essa jovem que é definida constantemente, e em praticamente todos os contextos da vida pelas paixões, emoções, motivações. É aquela coisa, tenho fotografado pouco, durmido muito menos, por que a cabeça não descansa, tenho amado mais do que o permitido, me apaixonado diante do proibido, me preocupado com o devir financeiro, amoroso, dissertativo, científico e ainda assim sobrevivendo a tantas teorizações sociológicas, antropológicas, comunicacionais. Mas confesso, que são as carnais que me consomem, que dão sentido a minha existência, que não me deixam durmir... essas estou longe de resolver num simples, cronológico e abstrato devir...

Preciso de uma estrada...ok. ok. semana que vem!! Uns dias por Concórdia na Argentina!!!

Thursday, October 15, 2009

Mais um pouco de antropologia e fotografia com a própria vida...

O assoalho da casa velha estava a balançar. Minha avó sentada atrás do fogão a lenha, desconfiava que naquela noite a casa ia cair. Entenda-se cair, literalmente. Mas, os violeiros não estavam nem aí para a confusão. Sábado à noite - noite de ensaio do coral. Um verdadeiro sarau. Músicos profissionais? Nenhum, mas todos bem formado e calejados pela vida. Da viola sai as músicas de igreja, afinal segunda era dia de festa para Nossa Senhora de Aparecida na comunidade vizinha. Mais tarde, da viola também saem modas antigas - "o tal menino da porteira - a morena que partiu nos braços de outro - a loira que aquece o coração - a saudade da minha terra - o baile bom da mariquinha" e assim, entre uma lembrança e outra se fazem as canções. A roda de amigos se fecha um pouco mais e entre uma, duas, três tipo de vozes a leveza das músicas faz-nos esquecer de outras agruras. Tudo ali é alegria, e se estende até a meia-noite.




Mas o sarau não era à toa não. Dona Vilma estava de aniversário. 55 anos, e enfim a aposentadoria. Ela que foi a vida inteira agricultora, estava mais do que na hora de ter esse direito. A alegria era tanta, que até parece que 450 pila a mais todo mês vai mudar a vida dela. E como faz a diferença. Só pode ser a minha mãe, essa "velha" vale ouro, e não há salário que pague o esforço que se faz, mas...enfim... E é ela que pucha a cantoria, afinal música sempre fui de suas grandes paixões. Ela e meu pai desde que me conheço por gente e muito antes disso, sempre carregaram a voz no devido tom, e no braço o violão. O violão é uma relíquia, Gianinni vermelho. Se me lembro dele, em outras épocas também eu já dedilhei aquelas cordas. Não tinha contado isso ainda? Ah, não acredito. Sim, eu fiz curso de violão, e nem me importava em ter que andar doze quilômetros no final da tarde para voltar para casa, com um violão debaixo do braço. Também, já cantei em festival. Algumas vezes fazia a segunda voz junto com a minha mãe, em outros momentos fiz a primeira com um amigo, mas o auge do meu sucesso foi a carreira solo. Sim, consegui um suado 4° lugar num festival da canção com a música "Malandragem" de Cássia Eller, nunca me esqueço disso, até hoje o troféu é bem guardado no baú das premiações, hehehe. (risadas - muitas risadas)


Entre uma cantoria e outra o tão esperado "brodô". Não sabem o que é? Uma panela gigante passa o dia todo no fogão à lenha a cozinhar galinha. Mas, tem que ser galinha de fora, essas bem caipira, para o brodô ser bem caipira também. Se coloca salsa, enfim, temperos, e na noite se tira a galinha "lessa" e se serve o tal caldo com bastante queijo. Eita coisa bem boa. É de ficar com os beiços bem engraxado. Além disso, a mesa repleta de bolo, bolachas, sanduíches, docinhos, aquelas coisas todas de aniversário. E ali no meio de tudo isso, e de todos nós, o pequenino Artur. Ele representa a nova geração da família, com 6 meses o pequenino é filho da minha prima Andréia. Parece que foi ontem, éramos em oito, nossa diversão preferida era o futebol no campo, no meio do potreiro, no final da tarde. E de noite óbviamente o puchão de orelha do pai, pois sempre nos atrasávamos para o banho. E fila era certo. Bons tempos aqueles, heim, pena que o Artur, já não tem mais o campinho no meio do potreiro para tomar banho nas poças d'água deixada pela chuva, nem para andar de carrinho de madeira ladeira abaixo.


Nós crescemos muito. Das seis meninas, duas delas já são mães; dos rapazes: um já é mestre, o outro quer fazer faculdade de informática, assim que sair do quartel. Mas o assoalho velho está sempre lá a balançar, os aniversários são sempre comemorados, e a viola chora bonita, para os velhos que ainda estão lá, e para o Artur que mesmo longe também sempre vai voltar para aquele lugar....A sim, e o Guilherme também....Enfim, foi um bom final de semana com minha família, sempre com a leveza de se voltar para lá, sempre com a tristeza de deixar muitas coisas por lá. A gente muda muito, com o tempo, com a saudade, com os calos nos dedos depois de tocar violão, com a falta de tempo àz vezes para tocar um violão. Para a saudade que fica toda vez que se fica longe de mais uma paixão....e assim quantas modas que saem daquele violão...

Wednesday, October 07, 2009

Observações antropológicas - e eu? Chorava, chorava, chorava....


Há duas coisas que eu aprecio muito, dentro tantas outras, obviamente: viagem de ônibus e a “fossa” – aquela angústia profunda, que em alguns momentos chega a se transformar em dor física. O ônibus sempre é um bom terreno para experimentações antropológicas: observar, ouvir, perceber, e também pensar na vida, dormir mais um pouco e assim por diante. Já a “fossa” é uma inspiração (ok, eu não gosto de sofrer, mas também sou hipócrita em dizer que sou feliz o tempo inteiro – tenho problemas e eles me machucam), dela escrevo muito mais, penso muito mais: as poesias fluem, a vontade de uma reviravolta toma forma, e assim por diante. Então foi assim, que sai de Uruguaiana ontem: de ônibus e chorando, chorando, chorando (mas os motivos não vem ao caso, vale outra postagem, só tenho uma coisa a dizer: eu acredito, também, em histórias de amor).

Já na rodoviária começa minha percepção quase que antropológica, se não fosse o fato de estar demais envolvida com meu campo (ai, ai, a fronteira nunca mais vai ser a mesma). Um casal de idosos compartilha suas histórias de vida no banco, ao meu lado. Estavam se reencontrando depois de anos, os dois com pele enrugada, já caminhando meio tortos. Estavam felizes, falavam das respectivas famílias, do fato dos dois estarem viúvos. Ela morou durante muitos anos em Alegrete, e agora retornava para Uruguaiana, infelizmente a mão faleceu a poucos dias de um ataque cardíaco. Ele estava a caminho de Santa Maria para visitar um dos filhos, e se dizia descontente com a atitude dos filhos de querer controlar a vida dele. De repente eles pegam na mão um do outro e trocam carícias. E eu? Chorava, chorava, chorava. Ainda bem que meu “novo super óculos” é grande suficiente para esconder muuuuuitas lágrimas (hauahau). Por fim se despediram com um abraço apertado, combinaram de se rever em breve e o velho seguiu viagem comigo – aliás no mesmo ônibus.


No ônibus um jovem, desses bem gaudérios, todo pilchado, senta no banco da frente, tira o celular da guaiaca e se bota a ligar pra toda parentada, a conversa seguia quase sempre no mesmo galope: - Chê to voltando, tava em Uruguaiana, fiz uma surpresa pra nega veia. O sogro já me disse pra colocar sal grosso nas costas - e dava risada. Depois continuava contando de sua égua que teve algum problema nas patas, o que não possibilitou seu desfile no 20 de setembro. Sem falar na quantia de campo que ele comprou e nas cabeças de rês (será que é assim que se escreve) que estava colocando por ali. E eu? Chorava, chorava, chorava. Cansei de ser pobre nessa vida (hauahau). Mega-sena? Caminhão? Novela das 8? Óh céus....

Já no Alegrete, entra no ônibus dois jovem que pelo meu entender tinham se conhecido na rodoviária mesmo. Os dois sentam no mesmo banco, e trocas de insinuações se distendem por boa parte da viagem. Eu tentava evitar lançar meu olhar naquela direção, mas não conseguia. O jovem se grudou na orelha da moça, mas isso literalmente, sem um beijo na boca, o moço masturbou a menina pela orelha até São Chico. Ai, desculpa, não me agüentei. Na rodoviária o pai da moça, também, todo pilchado a esperava facero, se soubesse o que eu vi...e eu viiiiiii. E eu? Chorava, chorava e chorava um pouco mais.

Mas mesmo diante de tantas histórias ao meu redor, eu permanecia ali no meu canto, chorando quieta, rindo e relembrando histórias de uma cordilheira, estradas e tudo mais. No entanto, em Manoel Viana, onde o ônibus faz uma parada de 15 min (eu sempre me pergunto, por que parar 15 minutos em Manoel Viana? Só indo lá pra ver o motivo de minha indagação) um senhor resolve me abordar: -Senhorita, minha poltrona é a 25, onde você está sentada. Levei um susto, olhei para minha poltrona e ali marcava 23, então:
_Meu senhor minha poltrona é a 23, a sua é a 25.
_ Sim, senhorita a minha é esta 25.
_ Não, o senhor não está entendendo, a minha poltrona é a 23, a sua é ali atrás na 25.
_Pois é o que estou dizendo senhorita, minha poltrona é está aqui, a 25.
_senhor, aqui, veja a sua poltrona 25.
E conduzi pacientemente o velho até seu banco, que resmungado tratou de se acomodar. Nem preciso dizer, que coloquei meu óculos e chorei, chorei, chorei.

Em São Pedro, os motivos das lágrimas eram ainda mais latentes (mas isso não vem ao caso). Eis que mais um jovem entra no ônibus. Senta no banco de traz do meu. Quando o ônibus faz a curva, ele liga para a namorada que de longe acompanha o seu amor partir. Acenam um para o outro, e falam pelo celular. Ele diz que está muito triste por estar indo embora, que se pudesse ficar sempre ali. Por fim: _gosto muito de ti, viu menina. Beijos e fica com Deus. E desligou o celular. Nem preciso dizer que eu chorei, chorei e chorei um pouco mais.

E assim, entre a observação participante, e a participação observante chego a conclusão do que todos me avisaram: O envolvimento com o campo tem limite, o distanciamento sobre o objeto é importante, para que se levante questões, reflexões, o tal “estranhamento”. Mas eu me envolvo não adianta, por que eu sou o medo de amar...sim, mas eu amo por demais....por isso com licença, preciso chorar, chorar, chorar – aliás preciso viajar, viajar, viajar – mas como viajar se a estrada nunca mais vai ser a mesma, nem a fronteira, nem a cordilheira, nem eu. Bom, o ônibus chegou em Santa Maria às 20hs, seu horário normal é as 19hs, e eu entre uma história e outra para contar, na próxima postagem me decido em lhes contar uma linda história de amor - a que eu escolhi para ser a minha história, ao menos rende uma bom romance ficcional.
Na foto....O entardecer no Uruguai....que também nunca mais vai ser o mesmo..Ahhhhhhhhhh...Óh céus....

Saturday, October 03, 2009

O que uma entrevista faz com a gente...o que um telefone quando toca faz com a gente



Eu sou uma sofredora por natureza, e não escondo isso de ninguém. Não que isso seja a minha principal característica, mas admito que sofro, me emociono muito facilmente. É uma tal inquietação e desassossego constante. Dizem que não se escreve poesia, sem este tal sofrimento. Ele é um campo fértil de lastimáveis palavras que se estendem pelo caderno velho no meio da noite. Ah, vocês não tem disso? Ok, eu tenho e não tenho medo de admitir. A entrevista foi sobre a minha vida depois de sair de casa. O que mudou, o que ficou, como é quando voltas?
Ah, tocaram no meu ponto mais fraco. Minha história, que tantas vezes já comentei aqui.


Ok, não comento mais, então. Mas preciso escrever. Lembram do telefone mudo que escrevi no texto abaix? Ele tocou, ontem depois da meia-noite. Já tentava durmir. Tentava por que a semana foi pesada. Aquela história de muita coisa pra fazer, misturada com muita coisa pra ler, e escrever, com muita coisa pra se preocupar, depois de umas tequilas fica ainda mais difícil..Óh Céus, eu queria ser a Helena da Novela da Oito, tão mais simples, não? Não. Pura ficção. Pode ser. Bom, o telefone tocou...Obrigada era a voz que precisava ouvir...´Mais triste fiquei, mais inquietação frente ao mundo. Ok, hora de partir...na mala, aquelas velhas insatisfações....Eu sou assim, desculpem -me ...