O monstro do milharal - e as rosas do quintal!!!
Eu confesso tenho memória curta. E isso não é nada interessante, há muitas coisas da minha infância que simplesmente não consigo lembrar. Frustante? Sim, ainda mais agora que entendo o quanto minha infância foi interessante. Mas, volta e meia lembro de algumas peripécias daquela época, e aos poucos algumas memórias táteis, olfativas, gustativas vão vindo à tona. O sabor do feijão da minha avó, por exemplo. Do esfregolão de milho no meio da tarde em dias de chuva, essas coisas. Mas eu lia muito quanto criança, quando adolescente muito mais. Já devo ter contado por aqui, que sempre quis ser escritora, por isso eu vivia muito cada história. Acho que lembro melhor delas, dos seus personagens, do que algumas histórias e personagens reais da minha infância.
Mas, eu vivia com mais umas 5 crianças, éramos primos. E criávamos todos os dias inúmeros personagens, alguns fantasmagóricos. Nunca me esqueço do "monstro do milharal". Nunca contei? Ah, não acredito. Foi assim: Era uma vez, uma tarde de fazer marmelada lá fora (entenda-se marmelada, não de marmelo, mas de qualquer fruta. Só mais tarde, fiquei sabendo que marmelada é de marmelo. Figada é de figo, perada é de pêra, e assim por diante. Assim como, só fiquei sabendo bem mais tarde que "doberro que o gato deu" é do berro que o gato deu, heuahaua, eu me divirto comigo mesmo...Sou inocente, gente, acreditem). Bom, mas como ia dizendo, se reuniu a vizinhança, para a tarde da marmelada. Colhe as frutas, descasca as frutas, faz fogo lá fora, se limpa o tacho, coloca as frutas no tacho, ferve, ferve, coloca açúcar, às vezes um pouco de água...e mexe...mexe...mexe...E a alegria da criançada era se lambusar com as rapas no final do tacho, quando tudo estava pronto.
A estrada do lado do milharal
Enquanto as mulheres preparavam a marmelada, nós brincávamos de casinha atrás do paiol, debaixo das árvores, do lado do milharal. Nossas casas tinham tudo: cozinha, sala, quartos e inventávamos histórias mirabolantes, baseado em histórias reais, ou que víamos nas novelas. Existiam conflitos existenciais, amorosos, momentos de festa, de tristeza. Eram nossas histórias, nas nossas casinhas. Histórias de gente grande, reinventada por gente pequena. Mas, eis que um dia quando ao acordar, tivemos uma surpresa, nossas casinhas estavam todas desarrumadas, objetos quebrados, portas caídas..um caos. Entre várias hipóteses numa de nossas reuniões para tentar descobrir quem estava destruindo nossas "casinhas" chegamos a conclusão que o mal vinha do milharal. Sim, tínhamos certeza que um monstro habitava o milharal alto, verde, fechado.
Então, enquanto as mulheres continuavam fazendo a "marmelada" decidimos duelar com o monstro. Juntamos sacos de cáquis da frente de casa, e fomos para nosso posto de ataque, a porta entreaberta da estrebaria (hoje ela nem existe mais). E começamos a jogar muitos cáquis para os lados do milharal, acreditávamos que o monstro seria atingido de alguma forma. Eis, que para nossa surpresa alguns cáquis começaram a voltar. O susto foi geral. Ele existia mesmo, corremos para frente de casa, onde as mulheres mexiam o tacho de "marmelada", e chamamos nossa prima mais velha Andréia (é a mãe do bêbe lindo que aparece numas postagens abaixo) para um canto e lhe relatamos o acontecido. Minha prima que já era uma mocinha, não acreditava mais em papai-noel, quanto menos em monstro do milharal, mesmo assim, resolveu por a prova nossa história. Voltamos para nosso posto de ataque, ela ficou escondida de longe observando, queríamos mostrar que os cáquis estavam voltando, que o monstro morava ali na lavoura de milho. Jogamos, jogamos, jogamos e nada, o monstro não deu nenhum sinal. E minha prima muito indignada nos deixou ali sem entender.
Confesso, que até hoje não sei ao certo se o monstro existia de fato, ou se ele era minha prima Andréia, ou meu irmão Màrcio que estavam sacaneando com a gente. Bom, eu acredito em histórias, em ficções, vivo criando e recriando as minhas próprias. Impressionante, às vezes só muda os personagens. E mais do que me lembrar das peripécias da galerinha reunida na infância, eu me lembro das histórias dos livros....minha memória fotográfica de cada lugar, cada rosto da triologia O tempo e o vento é impressionante, Érico Veríssimo ficaria impressionado com minhas densas descrições. Eu sinto o balanço da cadeira de Bibiana, nas noites de vento. Eu sinto a apreensão no cerco ao sobrado. Eu ouço a flauta de Pedro Missioneiro. Eu vejo Ana Terra no tear. Eu lamento não ter conhecido Rodrigo Cambará, ter tomado uma cachaça no bolicho.
Eu vejo Clarissa no balanço debaixo das árvores no quintal. Eu tento desvendar o mistério do caso dos dez negrinhos, de Agatha Cristhie. Eu vejo ela se encontrando com ele na cozinha na noite da missa do galo. Enfim, eu tenho guardado fotograficamente todos as sensações que envolvem essas histórias, essas personagens, esses livros.
As rosas no quintal em frente ao milharal
Aí, cresci, fiz jornalismo, acreditando que era o caminho para ser escritora, como relatei para um amigo na noite de quinta. Hoje, quero ser também antropóloga (literatura, jornalismo, antropologia, é tudo muito mais próximo do que imaginava) tenho tentado retomar minhas leituras de literatura...deixei elas guardadas no tempo...hoje elas me fazem falta para escrever, para imaginar, para te ler, para me ler...
Por que essa postagem? Não sei, me deu vontade de escrever sobre isso ontem depois de passar a noite de sexta em casa assistindo documentários, lendo livros, sem vontade de sair...olhando para umas rosas pequeninas vermelhas e uma botão de rosa rosa entreaberto, do lado ainda um bilhete do principal personagem, da atual história....Que se passa, com me???